Sob pressão

Fevereiro 8, 2018|Posted in: Histórias

São 8h31 quando a professora pede, em russo, para um aluno fechar a porta. Ela quer testar nossa capacidade de compreender o imperativo. No minuto seguinte, três colegas egípcios chegam ofegantes e conseguem entrar na sala, não sem antes travarem – como se diante de um vidro. É preciso obter autorização. Diante da expressão conteste – “Да, можно” [Dá, môjna] -, eles relaxam e entram.

Mais quatro minutos, e Bakhaa bate e abre a porta. Ele é um egípcio magricela e topetudo com cara de criança e olhos verdes e ligeiros. “Ontem você disse que não se atrasaria para a aula de hoje. Que horas são?”, dispara Anastasia – provocando a já esperada reação vacilante. “Se vocês não querem estudar, não tem problema. Eu falo russo bem, eu não preciso falar russo.”

Anastasia está irritada. E eu voltei ao ensino médio. Quando a professora se irrita, ela fica ainda mais russa. A cobrança aumenta, a ironia também. Às vezes a panela de pressão estoura. Em dias como esse, sinto meu estômago enrijecer. Fico mais tenso, é mais difícil responder às perguntas, obrigo-me a prestar mais atenção.

Nossa turma é uma espécie de seleção internacional. Boa parte da turma fala árabe. Alguns egípcios, um iraquiano quase albino – cuja procedência é denunciada somente pelo nariz semítico -, e um sudanês formam a base do levante. Eles gostam de falar. Em árabe, é claro, porque em russo… bem, é russo. A equipe é completa por Brait – um ganês de 37 anos que quer fazer dinheiro aqui -, Jaime – equatoriano esforçado que parece ter saído de Delhi – e Enzo, um chileno de madeixas longas cheio de suíngue, que pretende ser cosmonauta (a versão russa para astronauta).

Com exceção minha e do ganês, a idade da turma varia de 18 a 22 anos. Se por trás das janelas grandes a neve reluz o pesado inverno, na sala viceja primavera, exaltação, uma energia que não para. E que também influencia o humor de Anastasia, levando-a das gargalhadas ao inconformismo.

Prédio da Universidade Agroindustrial de Belgorod ao fundo

Um dos destaques é Khalid, sudanês que faz caretas e levanta da cadeira o tempo inteiro. Sim, parece que tem pulga na cadeira dele. Ontem, às vésperas de começarmos uma prova, ele se agitou pro trás dos óculos pequenos e começou a falar alto. Eu estava farto de tanta juventude e meu olhar foi uma ameaça muito bem compreendida. O silêncio costuma ser mais eficiente do que as palavras. Ele veio até minha mesa, se acocorou, e começou a falar em árabe em um tom conciliador. Amoleci, beijei sua testa e começamos a prova.

 

Rápido

Diante de alunos jovens e cheios de energia, Anastasia costuma entrar na brincadeira. A professora com pouco mais de dez anos de carreira ri diante das piadas moleques. Devolve gracejos e se diverte, particularmente, provocando a todos com considerações sobre as mulheres russas. “Eu quero que você conjugue o verbo ajudar agora – disse a Bakhaa, depois que ele falhou duas vezes – não é amanhã, é agora. Eu sou uma moça, não posso esperar.

A 20km do centro da cidade, distrito de Mayskyi estimula o sossego

Na última semana, ela tem perdido a paciência repetidas vezes. “Ahmed, verbo ajudar, futuro do perfectivo”. Silêncio! Alguns engasgos, nenhuma resposta. Um, dois, três e… “obrigada, Ahmed. Mahmud.” Três, dois um, silêncio e, lá vamos nós de novo. Seus olhos se inflamam, ela levanta da mesa e explode. “Só eu trabalho aqui? Vocês pagaram esse curso para não fazer nada? Vocês não estudam à noite? Ninguém estudou aqui?” Anastasia dispara como um balão que estoura. Dura cinco segundos, atinge a todos e, simplesmente, a esvazia. Ela olha novamente como se absolutamente nada tivesse acontecido. Não há o menor sinal de rancor em seus olhos azul-piscina. Com movimentos exageradamente leves, continua, quase como se a reação assustada da turma a divertisse: “Enzo, conjugação do verbo ajudar, futuro do perfectivo.

Anastasia costuma ser calma e brincalhona. A educação russa, não. Sinto nos detalhes que é uma educação baseada na pressão. Um minuto de atraso e a repreensão será pública.

Um dia desses, no corredor, um dos brasileiros não conseguiu se fazer entender a uma professora e, diante da irritação dela, soltou: “sorry”. “Sorry?”, ela arregalou os olhos contrariada e deu um sermão em russo. Novato no russo, ele não entendeu nenhuma palavra, mas compreendeu a mensagem por completo

Esse tipo de situação acontece diversas vezes. Um aluno não entende, a professora pressiona: “быстро, быстро, быстро” (rápido, rápido, rápido).

Modelo pedagógico

Os russos parecem funcionar bem sob pressão. Diante do nervosismo, precisa-se resgatar o conteúdo nos confins do cérebro (se ele estiver lá), lidar com o nervosismo e, responder ao solicitado como se não houvesse pressão. O modelo pedagógico que vivenciamos na faculdade preparatória me chama muito a atenção. Seriedade, respeito e foco no conteúdo, ao extremo.

Existe uma pressão, que assusta a alguns estrangeiros, particularmente aos latinos, pois exige repetição contínua e muito esforço – sem desculpas. A sensação, acima de tudo, é de que a educação goza de uma aura especial. A professora chega à sala, os alunos levantam-se. A aula acaba e o aluno responsável (дежурный) vai limpar o quadro e organizar a sala. Poucos minutos antes de a aula começar, ouve-se pelos corredores uma percussão de tênis e sapatos que se aceleram para chegar à sala em tempo. Há verdadeiro receio em se atrasar.

Às 17h o inverno anuncia que é hora de anoitecef

Como aluno, presto atenção em minhas próprias reações. O que vejo pelos corredores está também dentro de mim. Voltei mesmo ao ensino médio e há algo de muito bom nisso. O ambiente nos impele a acertar o ritmo, ter as respostas na ponta da língua e a dançar conforme o horário manda. Há que se buscar prazer na disciplina.

O ritual é executado ao pé da letra. À superfície, vigora essa espécie de sacralidade no modo como a educação é vivenciada, do respeito ao método. Um olhar mais atento repara que, por trás dessa epiderme, o iceberg que rege as relações é profundo e nebuloso. Um passo de cada vez. O passo de agora é voltar a repetir a conjugação dos verbos. Estou em semana de provas!

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