O sonho acabou? Ou, não há amostra

Fevereiro 2, 2018|Posted in: Histórias

“Um visitante perguntou a Uways

– Como te sentes?

– Como alguém que se levantou de manhã e não sabe se estará vivo à noite.

O outro observou:

– O que isso tem de original? Todos os homens se encontram na mesma situação

– É verdade – disse Uways -, está certo. Mas quantos têm consciência disso”

(narrado por Idres Shah)

===========

Quando a aula acabou, Anastasia pediu que eu a esperasse. Não me disse o que queria. Esperei, achei que precisava falar sobre documentos. Perguntei, a professora desconversou. Esperou que quase todos fossem embora e então conduziu a mim e a Mahmud – um egípcio jovem que costuma apertar os olhos por trás dos óculos quando não entende o conteúdo – para fora, sem mencionar nada.

Saímos da universidade e ela pediu que Mahmud andasse na frente. Ele obedeceu imediatamente, como um soldado raso. Fazia um frio especial naquele dia. A temperatura aumentara para quase zero, mas vento e chuva causavam um incômodo diferente. Ela olhou para mim, enquanto caminhávamos: Dalmo um dos exames que você fez apresentou um problema – disse, em russo, em referência à bateria de exames que todos os estudantes estrangeiros precisa cumprir ao chegar na Rússia. Problema? Que problema? “A sua análise de sangue deu positivo para vírus de hepatite C.”

Meus olhos devem ter denunciado uma tentativa de incompreensão, mas como russa de verdade, ela continuou: “É uma amostra… a Rússia tem padrões elevados… não há nada certo… você vai precisar fazer novos exames…” – continuou, em russo. Eu entendia cada palavra que ela dizia. Era como se o choque destravasse o idioma em mim. “Isso é muito sério”, consegui responder, numa tentativa de voltar ao controle. “Sim, sim – ela me cortou – mas hoje tem remédios muito bons, a medicina está avançada, estamos no século 21.”

Entendi tudo o que ela disse, mas nada entrava direito na minha cabeça. Anastasia é uma professora que me cativou desde o princípio Os olhos azuis são afiados, encravados como duas pedras preciosas em um rosto levemente arredondado, forma que se destaca ainda mais com seu cabelo loiro à chanel. Ela tem uma didática cirúrgica, é irônica, temperamental e, para o deleite dos estrangeiros, menos exigente com alguns dos costumes da educação russa – como obrigar que todos os alunos se levantem ao entrar em sala ou impedir que entrem em sala com seu casaco.

A neblina cobriu meus pensamentos como a Mayskyi

Mas, acima de tudo, ela é russa, e isso me parecia evidente na forma como conversava comigo. Direta, sem muitos devaneios, sem espaço para sentimentalismos. Era preciso fazer um novo exame, a guia estava na mão, as recomendações, também. “Dessa vez não poderei ir contigo. Amanhã te passo o endereço e você vai, finalizou, depois de uma longa caminhada que demos por todo o distrito de Mayskyi.”

Mais do que confirmar o resultado do primeiro exame, o segundo definiria a classificação de minha saúde perante os russos. Preocupados com a transmissão de doenças, eles impõem uma série de exames cujos resultados podem, na pior das situações, te obrigar a voltar para o seu país.

A queda

Minha mente não sabia por onde começar. A sensação inicial, de choque, deu espaço ao “não é possível”. Por que tudo isso? Por que eu precisava vir à Rússia pra descobrir isso? Por que precisava receber uma notícia tão dura em russo, sem a segurança de me fazer entender como gostaria. Os porquês são como cigarros. Quanto mais consumimos, no intuito de preencher um buraco que eles mesmos criam, mais parecem cavar este buraco. Passei algumas horas vagando pela própria mente, buscando caminhos e explicações inexistentes, mas que eram tão bem desenhados por mim mesmo. Tatuagem? Sexo? Alguma lâmina de barbear que por descuido peguei de alguém – me questionava, depois de intensificar o sofrimento com leituras na internet. E o que seria daqui para frente? Tinha a sensação de que a minha vida já começara a mudar, à minha própria revelia.

Alguém me perguntara dias antes sobre a primeira semana na Rússia. “Tenho a impressão de que a vida tem sido tão boa comigo que meu sonho se tornou ainda mais bonito na versão de não ficção”, respondi na hora.

Extremamente peludos, os gatos enchem Mayskyi de vida

Mas e agora? Eu olhava tudo à minha volta. A neve trouxera uma sensação de pureza e tranquilidade à minha vida. O branco que engole tudo cria um ar de conto de fadas. Vivemos em Mayskyi, um pequeno distrito rural de Belgorod. A universidade é ladeada por casas grandes como nossos devaneios. Com exceção da cidade, a cerca de 20km, caminhamos para chegar em todos os lugares. Há muita vida por todos os cantos, vida que passa despercebida nas expressões sóbrias dos caminhantes e nos poucos gatos gordos e peludos que encaram o frio.

Desde que cheguei aqui, imprimira uma rotina que desejava há muito tempo. Acordar cedo, meditar, vestir o capote para ir até o mercado comprar lentilha, cenoura e batatas. Tomar chá verde e cozinhar. Fazer exercícios físicos. Ler até cair no sono, numa cama dura em que nunca dormi tão bem. Se eu soubesse desenhar, era exatamente a pintura que teria feito antes de vir para cá.

Agora tudo parecia desvanecer nos meus pensamentos, num futuro desenhado em que acordaria. Mas tão rápido, mal havia segurado entre as mãos…

Uma paz estranha

Depois de alguns cigarros, voltei para meu quarto. Meus colegas de apartamento estavam na cidade e decidi esquentar a água para o chá. Sentei à mesa e “bruscamente, pois foi muito rápido” – como na Árvore de Natal na Casa de Cristo -, senti “um grande bem-estar”. De repente, me pareceu que tudo estava certo, exatamente como deveria ser o enredo.

Senti uma confiança e uma paz que não eram minhas. Há muito tempo eu não me sentia tão bem fisicamente como desde a chegada à Rússia. Isso me deu confiança. Por outro lado, ri sozinho da ironia. Teria a vida me trazido até aqui para me lançar esse feitiço? Eu precisava ir aos confins da Rússia para descobrir que tenho hepatite C.? Você está aí, mocinha? – perguntei a mim mesmo, como se carregasse um filho em meu sangue, e não um vírus. “Teremos aventuras juntos, é isso?”

Por quanto tempo eu não dissera a mim e aos mais próximos que precisávamos aproveitar a vida, que não sabemos o dia de amanhã, e que ela nos ensina, às vezes, com doçura, e em outras situações, com bofetadas. Está tudo bem levar uma porrada dessas, está tudo certo, eu pensei. Não há motivo para que nada seja diferente.

Pra que a pressa?

Àquela noite, fui dormir tranquilo, depois de fazer as lições de casa. Na manhã seguinte, acordei cedo e meditei por meia hora. Cheguei à aula e me esforcei para que o meu desempenho fosse o melhor possível. À tarde, depois da aula, tomei um ônibus para a cidade.

A professora desenhara um mapa mambembe para mim e decidi colocar no Google Maps o nome do laboratório em que faria o novo exame, dessa vez mais detalhado, para confirmar minha infecção. Mas estamos na Rússia, e o endereço estava errado. Perguntei a uma senhora, que pareceu se afeiçoar de meu russo macarrônico e me orientou sobre como chegar ao laboratório.

Fui parar em outro laboratório e a atendente tentou me convencer que eu deveria fazer o exame lá. Mas estamos na Rússia, e eu não queria fugir nem mesmo uma palavra do script. Agradeci e caminhei meio desnorteado até me deparar com o nome Инвитро. Ei-lo!

A atendente pareceu se irritar com meu nível infantil. Entreguei a ela a guia e o resultado do exame anterior como se fosse culpado de algo. Que sensação estranha. Sou eu projetando uma condenação nos olhos dela ou ela me olhou com uma compaixão que eu não quis aceitar? O exame foi rápido, verifiquei meu nome no frasco e parti.

Prevenção a DTSs, no hospital em que fiz o primeiro exame

A partir de agora, queria que o tempo voasse. Tentava evitar de mim mesmo, mas no fundo queria pensar que tudo não passasse de uma ошибка, um erro, uma confusão. Certa ansiedade tomou conta de mim. Será que seria acentuada nos dois dias que faltavam para o resultado do exame? De repente, outra frase que costumo jogar ao vento para os mais próximos ecoou em mim: “Para que a pressa, se acelerar a vida é sempre estar mais perto da morte?” Voltei para casa, fiz tarefa e fui dormir tarde.

Не обнар

Acordei no dia seguinte mais tranquilo. Meditei e fui para a aula. Era para ser um dia morto, não deveria ter grandes novidades e acreditei que ficaria mais calmo, mas não foi o que aconteceu. A aula parecia cheia de simbolismos estranhos. “Vamos dar exemplo do futuro imperfeito, pessoal. ‘Eu estou doente’”, exemplificou Anastasia. “Abdul Ahman, agora no passado: ‘Ontem eu fiquei doente’. Dalmo, sua vez”. Amanhã ficarei doente, repeti, e aquilo me deu uma bofetada. “Você vai ficar doente amanhã?”, gracejou Bahar, ao meu lado.

No final da aula, fui até o escritório central da universidade. Precisava falar com Irina – a chefona que queria ser professora de literatura – para pagar o restante do curso. Mas estava em dúvidas sobre minha situação na Rússia. “Você vai conhecer muita coisa interessante aqui na Rússia. Muito mais do que no seu país. Coisas que você nem imagina”. As frases dela martelavam minha cabeça.

– Com licença, Irina. Vim pagar o curso. Mas gostaria de tirar uma dúvida. Eu fiz uma série de exames e…

– Eu já sei o que aconteceu – cortou-me.

– Pois é. Eu gostaria de saber se há alguma chance de vocês me mandarem de volta para o Brasil dependendo do resultado do exame. Porque não faz sentido eu pagar…

– Não, você não vai ter que voltar. Mas vai ter que gastar dinheiro com remédios e não vai conseguir fazer seguro de saúde aqui – começou, num tom definitivo – você usou seringas, algo assim?

– Não, somente recebei injeção para exames em grandes laboratórios. Também tem essa tatuagem que…

– É, isso também pode acontecer. As pessoas querem gastar pouco para fazer tatuagens – disparou.

– Na verdade eu fiz em um lugar bem…

– Дорогой – cortou, utilizando a palavra que, como em português, significa caro no sentido financeiro e no sentido de querido, estimado -, mesmo assim, pode ser. Você fez há muito tempo?

– Não muito!

– Então é isso, deve ser isso. Cem por cento que é isso. Pelo menos ficou bonita? – soltou, e me acertou em cheio.

Consegui manter a compostura, uma expressão de seriedade e tranquilidade no momento. Para os russos, parece ser natural mesmo em situações tensas, mas para mim era um esforço quase hipócrita.

A noite em Belgorod, na noite em que fiz o segundo exame

Saí de lá e a tranquilidade do dia anterior dera espaço a uma sensação pesada. Meu estômago embrulhou e os passos para voltar ao quarto foram duros. Encontrei parte da turma no caminho, fui ao mercado com eles e me desvencilhei em seguida para caminhar sozinho até em casa. Subi as escadas com uma respiração sôfrega, entrei em casa e, quando ia do quarto à cozinha para largar a sacola, pensei em como cada passo me parecia mais lento do que o normal.

Coloquei o celular para carregar – o frio é um catalisador para descarregar a bateria. O celular ligou, depois de morto por umas duas horas. Recebi um SMS: o resultado do exame estava pronto, um dia antes do prazo estipulado.

Eu estava sozinho em casa. Preferia assim. Abri a página do laboratório na internet, sofri para achar a seção de resultados e tentei manter a calma. O documento, o download, o primeiro olhar. Результат: не обнар. Desconheço a palavra. Precisei do Google Translate para descobrir algo como “não há amostras” [do vírus]. O primeiro exame fora um falso positivo. Enviei à minha professora para garantir a tradução.

E, confirmada minha expectativa, chorei, chorei sem tem tentar evitar.

 

20 Comments

  1. Mirian Galesky
    Fevereiro 2, 2018

    Leave a Reply

    Chorei, Chorei sem tentar evitar!!!

  2. Dingue
    Fevereiro 2, 2018

    Leave a Reply

    Dalmo querido,
    suas palavras, como sempre, muito bem escritas, e cheias de
    expectativa e emoções me levaram por um momento a caminhar
    contigo na neve e compartilhar sua aflição, à ponto de fazer surgir o brilho de uma lágrima nos olhos ao conferir o resultado dos exames confirmando que
    era um engano ou melhor, mais uma boa história para você contar.
    Te desejo toda sorte, e sucesso nesta sua rica aventura uma vez que determinação e coragem você ja demonstra ter de sobra.
    Um grande abraço
    Dingue

  3. Sabine
    Fevereiro 2, 2018

    Leave a Reply

    Meuuu, Dalminhooo! Fiquei com o coração apertado! Ufaaa! Você é sensacional amigo, te amo.

  4. Aclelio Camargo
    Fevereiro 2, 2018

    Leave a Reply

    U-A-U!
    Expressão apropriada para a situação, para a experiência e para o texto… você leva jeito pra prender um leitor, viu… rsrs Ansioso pelos próximos textos.

  5. Fabiana
    Fevereiro 2, 2018

    Leave a Reply

    Você é um escritor incrível Dalmo, cada trecho do seu texto nos transporta para a realidade que você está vivendo, estou acompanhando tudo encantada. Que alívio! Força e saúde para você! Gratidão por compartilhar! Aguardo ansiosa os próximos capítulos… 🙂

  6. Fábio Maciel
    Fevereiro 2, 2018

    Leave a Reply

    Grande Dalmo… Estava na torcida durante o enredo da história para que o resultado fosse falso… É acabou dando certo.
    Sucesso aí meu velho, estou na torcida! E muita vodka para aguentar esse frio! Abraços

  7. Dalmo o Borba
    Fevereiro 2, 2018

    Leave a Reply

    Que aventuraaaaa

  8. Ladier
    Fevereiro 2, 2018

    Leave a Reply

    Dalmo, sem planejar, me vejo esperando a próxima crônica… Tua escrita é um poema em prosa. Fico feliz pelo falso positivo e te desejo uma vida longa e muitos e bons escritos como esse. Um abraço.

  9. Raquel Rossoni
    Fevereiro 2, 2018

    Leave a Reply

    Dalmo querido , você realmente é um escritor e tanto, conseguiu despertar em mim a vontade de ler …ansiosa pela próxima aventura.

  10. Adriana Barretta Almeida
    Fevereiro 3, 2018

    Leave a Reply

    Caramba! Que emoção!! Final feliz. Ou recomeço feliz. Que seja feliz a sua trajetória.

  11. Marina nucci
    Fevereiro 3, 2018

    Leave a Reply

    Manoooo, você tá bom de pescaria!!! Não pude evitar de ler até a última palavra. Além disso, é maravilhoso poder estar contigo aí, soprando fumacinha pela boca nesse ar congelado e se escondendo debaixo de um cobertor bem fofo e quente! Se não fosse assim..pela poética…não daria pra sentir a saudade doendo gostoso no peito…

  12. Salete Regina Borba
    Fevereiro 3, 2018

    Leave a Reply

    Querido Dalmo li com muita ansiedade mas final feliz,que Deus continue dando muita saúde e sabedoria a você.Grande abraço.

  13. Angela Catapan
    Fevereiro 3, 2018

    Leave a Reply

    Viajei contigo nessa história e vivi cada instante aí. Adorei!!!
    Que bom que deu tudo certo no final

  14. Fábio Synderski
    Fevereiro 3, 2018

    Leave a Reply

    Dalmo,
    Uma crônica muito envolvente, vivenciei contigo cada momento. Fico feliz pela sua saúde e desejo todo sucesso na sua vida!
    Forte abraço

  15. Mair Furlan
    Fevereiro 5, 2018

    Leave a Reply

    Oi Dalmo, tenho acompanhado suas aventuras e fiquei feliz pelo seu salto. Ansiosa pra saber da próxima proeza.
    Muita saúde e sucesso.
    🙂

Deixe uma resposta


You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

*