Não entendemos Dostoiévski

Janeiro 29, 2018|Posted in: Histórias

Inexperiência com as regras russas tiraram nosso sono na primeira semana para pagar o curso de idioma e os documentos iniciais. De um lado, ouvimos que tudo poderia ser feito com tempo e calma. De outro, o dinheiro era necessário antes de qualquer coisa, afinal, como ouviu certa vez o aventureiro Rudolph Krautschneider em Around the world for the feather of a Penguin, “no money, no honey”.

Se os detalhes burocráticos, na prática, atuavam como principal antagonista da semana, nos deixando de cabelo em pé, nesta história são úteis somente pelo fato de nos terem levado à sala de Irina Victorôvna Svischeva, chefe do departamento internacional da Universidade Agroindustrial de Belgorod.

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Depois de ouvirmos que não tínhamos mais tempo para pagar a primeira parcela do curso de idioma e tentarmos – sem sucesso, mas como bons brasileiros – adiar um pouco o pagamento inicial, nos vimos na sala da chefona russa para negociar.

Chegamos em oito, mas só dois ficaram, Paula e eu. Nosso argumento era simples: não conseguíamos transferir o valor necessário do Brasil em tão pouco tempo, e fôramos orientados a esperar para pagar. De outro, ela era impassível: a parcela inicial era imprescindível para que pudéssemos começar a estudar.

Enquanto os outros colegas esperavam em uma sala de reuniões ao lado, conversamos com Irina. Seu habitat corporativo é recheado de mapas, cartazes e souvenirs internacionais. Por detrás de uma mesa repleta de papéis em que anotava tudo, à moda antiga, a chefona nos lançava um olhar que ia da indignação à compaixão. Na maior parte do tempo nos parecia irreversível, não poderia fazer nada. Mas diante de nossos olhares mendicantes, alternava para uma voz compassiva, misturando curtas expressões em russo com explicações em inglês. “Значит, vocês pagam primeira parte, senão não posso fazer nada. Depois, tudo fica bem. Podem ficar tranquilos.”

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Não teve jeito. Entramos em um acordo para que cada um pagasse o que fosse possível naquele momento, depois conduzimos cada um dos brasileiros à sala para apresentar o passaporte e entregar as notas laranjas de cinco mil rublos (cerca de 300 reais cada). No meio do entra e sai da sala da chefona, conversávamos:

– Você fala russo? – me perguntou.

– Entendo um pouco. Mas preciso treinar muito.

– Vai estudar o que aqui? Graduação?

– Não, mestrado. Antropologia em Kazan.

– Antrapalôguia? – questionou, em russo, franzindo a testa como se eu fosse um louco, e acrescentou – Você é formado em quê?

– Jornalismo, respondi.

– Hmmm, e sobre o que você gosta de escrever?

– Um pouco de tudo, mas literatura, especialmente. Gosto especialmente da literatura russa

– Literatura russa? Русские писатели?

– Да (Sim). Dostoiévski é um dos meus favoritos.

– Dostoiévski? Mas é muito difícil. A verdade é que nós russos não entendemos Dostoiévski.

– Eu também não. Mas mesmo assim é muito bonito. Ele mergulha a fundo na mente das pessoas. Foi um livro dele, O Adolescente, que, durante minha própria adolescência, me fez pensar: ‘esses russos são estranhos. Parecem tristes e intensos. Gostaria de passar um tempo lá. E aqui estou eu, 13 anos depois.

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Irina Victorôvna me olhou com curiosidade. A chefona amolecera um pouco:

– Quando eu era pequena, queria ser professora de literatura. Depois, li tudo, todos esses escritores. Mas Dostoiévski é muito difícil.

– Concordo – sorri -, mas o meu favorito é Leônid Andrêiev – arranhei em russo -, um escritor do final da virada do século 19 para o século 20.

– Кто (Quem)? – reagiu, atônita – nunca ouvi falar.

– Eu acredito. Meus amigos russos não o conhecem. Ele foi traduzido para o português do francês graças ao empenho de um escritor brasileiro (Fernando Sabino), que gostava de sua obra. Sem querer, caiu em minha mão e gostei muito do seu texto direto e pessimista.

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Ela parecia não acreditar, mas desarmara-se e ganhara toda a minha simpatia:

– Fique tranquilo. Você vai conhecer muita coisa interessante aqui na Rússia – me disse. Muito mais do que no seu país. Coisas que você nem imagina – me disse, com um sorriso de mãe – e acrescentou, num estilo bonachão – vocês são todos meus filhos!

6 Comments

  1. Fabiana
    Janeiro 29, 2018

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    Oportunidade única, experiência incrível, gratidão por compartilhar

  2. Andreia Bombardieri
    Janeiro 29, 2018

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    Me imaginei lá! Ou aí não sei!! Parece que vejo uma senhorinha de óculos, kkk em um lugar frio,com uma lareira, sala grande, parece tão acolhedor!

  3. Jonas
    Janeiro 29, 2018

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    Incrível
    Muito feliz por você

  4. Nazen
    Janeiro 29, 2018

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    Sensacional! Keep on going!

  5. Carlos
    Janeiro 29, 2018

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    Boa! Vai ser demais!

  6. Romã
    Janeiro 29, 2018

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    Parabéns por dobrar a dona chefona, jornalista! Triste e pessimista parecem adjetivos estranhos para gerar encantamento! A morte também! Assim como um personagem ambicioso e egoísta… Mas sei que só parece estranho!

    Creio que vai sair um bom jantar da mistura da literatura com a antropologia (e jornalismo como tempero?!) em terras geladas e de durões. O cheiro que vem da cozinha está muito agradável. Bom que já me convidei para sentar à mesa.

    Dostoiévski, Andreiev e toda a rica literatura russa, assim como seus grandes pensadores, são realmente bom motivo! Continuarei na plateia porque o enredo me interessou ainda mais! 🙂

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