Boas-vindas da neve

Janeiro 25, 2018|Posted in: Histórias

A chegada a Belgorod, no sudoeste da Rússia, decidiu nos desafiar. Depois de cruzarmos a floresta escura de árvores monótonas por uma noite cujo único brilho reluzia da neve, chegamos à cidade de 360 mil habitantes onde passarei os próximos cinco meses para estudar o idioma.

Eram 6h30 da manhã quando o trem começou a reduzir a velocidade sem pressa, mas a claridade ainda levaria uma hora e meia para aparecer. À volta o clima soturno das árvores era coberto por uma névoa e por luzes alaranjadas que denunciavam o aparecimento da cidade.

Na hora, lembrei-me da cena em que o trem que leva Jonathan Harker chega à Transilvânia, na obra-prima de Bram Stoker. Desconhecido e expectativa dominavam o cenário. Ao invés de uivos e personagens assustadores, nosso problema era menor, real e mais prático.

Precisamos desembarcar mais de 20 malas em cinco minutos. O desafio era especialmente desgastante porque na noite anterior quase fomos barrados pela funcionária da RZD (РЖД, em russo), gigante estatal que detém o monopólio das ferrovias. Ela se irritara, lhe parecera que estávamos de mudança. E estávamos. Uns, muito mais do que os outros.

Vista da estação de trem de Belgorod

Numa espécie de organização corporativa, enfileiramos as malas pequenas para que as mulheres do grupo as tirassem rapidamente. Depois unimos os homens para tirar as cinco bigornas, digo, malas, cujo peso parecia conterem cadáveres. Transpira, respira, levanta e, ufa, foi!

Mas o problema só começara. Precisamos carregar as vinte e poucas malas por uns quinhentos metros na neve, comandados por uma professora que chegou para nos receber. Ela caminhava alguns metros à frente, insinuando que a linha de chegada estava logo ali. Quando arrastávamos tudo até o fim, dividindo a classe trabalhadora entre guardas, carregadores e coordenadores, a professora nos mostrava que o fim era mais para a frente.

Como um bom carregador, ou quase isso, arrastava as malas pela neve fofa. Nunca vira tanta neve no chão. Besteira para os russos, mas me fez compreender rapidamente a força de atrito, conceito que estudara no ensino médio. O trabalho foi pesado, mas o fato de não sabermos muito aonde íamos aumentava a dificuldade.

Vista de Майский, área rural onde fica o alojamento – casa nova

O sonho de Makar

Ao esticar todos os meus braços para arrastar as mochilas com muita dificuldade, lembrei-me do meu conto favorito da Nova Antologia do Conto Russo. Na história “O sonho de Makar”, Vladimir Korolienko nos conta as desventuras de um anti-herói no meio da Sibéria. Pobre demônio, Makar crescera entre a miséria, o frio e a malandragem. Suas tentativas de superar as desgraças da vida são temperadas por bebedeiras, pequenos infortúnios e ainda mais dificuldades.

Depois de tentar roubar a caça de um rival, ele é roubado, agredido e cai desconcertado, com frio, no meio da neve. Entre fraqueza e delírio, Makar morre de frio, no inverno no meio da Sibéria, sem qualquer chance de ajuda. O fim de sua vida é o início do melhor da história. Makar acorda no “outro mundo”, cuja direção única é ser julgado pelo “Grande Xamã”, uma espécie de Senhor de todos. Continua a tentar suas traquinagens mesmo diante de Deus, mas Korolienko bagunça as emoções dos leitores ao salientar o peso do mundo, da miséria e da hipocrisia oficial em que Makar cresceu, sempre sem ajuda.

Os problemas que enfrentaríamos ao longo do primeiro dia de Belgorod, apesar de não serem comparáveis aos pesadelos de Makar, me fizeram sorrir com a beleza da neve à nossa volta e com o peso da cultura russa, que paira no ar e que é tão bem desenhada na letra dos contistas nacionais.

Caras fechadas, burocracia e muita neve estavam à porta para nos receber, mas  conforme o dia foi passando, todas as dificuldades ficaram cada vez mais parecidas com os sonhos que eu tinha da Rússia. A neve que apedreja é a mesma que afaga! Era só o início do primeiro dia.

 

11 Comments

  1. Fabiana
    Janeiro 25, 2018

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    Caro Dalmo, encantada com o seu relato. Gratidão por compartilhar!

  2. Ladier
    Janeiro 25, 2018

    Leave a Reply

    Dalmo, cada vez que leio algo seu, me encanto. Vou acompanhar ansiosamente os relatos. Abraço e the best of luck.

  3. Caue
    Janeiro 25, 2018

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    Caraca! É neve pra dedéu!!

  4. Grimalda
    Janeiro 26, 2018

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    O relato do primeiro dia na Rússia, mais parece um capítulo de um romance.
    Acho que daqui sairá um livro lindo e cheio de muitos (re) significados.

    Quais serão os relatos do próximo capítulo?

    Anciosa

    Grimalda Amorim
    IDM
    Brasil

  5. Antony P
    Janeiro 26, 2018

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    Dalmo meu nobre, belíssimo relato, desejo-lhe boa sorte e bons momentos nesta jornada. Um abraço!

  6. Josiane
    Janeiro 26, 2018

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    Querido Dalmo fiz uma viagem imaginária até vc naquele instante em que retirava as malas senti uma grande ansiedade em ajuda-lo. Que texto maravilhoso muita luz pra vc. Bjo

  7. LUCAS BUCHILE
    Janeiro 26, 2018

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    Dalmo….que Aventura!

    Acho lindos os saltos que você faz entre a experiência vivida na Rússia e suas memórias de leitura. É lindo ver quando a literatura lida no passado atravessa nossa experiência presente, ressignificando o texto lido e criando novos sentidos para a vida.

    Permanecerei aqui acompnhando sua viagem… Aproveite

  8. Romã
    Janeiro 27, 2018

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    Malas muito representativas estas, tanto pelo real inconveniente que lhes causaram, quanto pelo simbolismo da jornada! Levamos às nossas andanças tudo que recolhemos pelo caminho da vida que julgamos importante. Mas chega um momento que as malas ficam muito pesadas…

    Mas, sejam as malas do simbolismo, sejam as malas que realmente pesam nos braços, o importante – além de conseguir carregá-las – é ter um bom motivo para carregá-las!

    Suponho que viajar para um lugar tão além, frio e talvez não muito amigável deva ter bons e interessantes motivos! Estamos todos desejosos de conhecer a origem desta trajetória! Queremos saber o motivo que o fez atravessar o mundo, enfrentar a noite em um trem e arrastar malas pela neve.

    Belo achado este blog. Belo texto, que dá indícios dê que virão relatos cativantes e humanos pela frente.

    • Dalmo o Borba
      Janeiro 28, 2018

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      Obrigado pelas palavras. Essa jornada foi, de fato, precedida de uma motivação muito forte, amadurecida por anos.

      Em um próximo post, conto um pouco mais sobre as origens e os meus simbolismos. Obrigado pelo interesse e pela sugestão.

      Grande abraço!

  9. Denise trotter
    Fevereiro 2, 2018

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    Adorei ler seu primeiro relato da chegada a Rússia. Parabéns pela bela e empolgante escrita.

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