O perigo das narrativas mentais coletivas

Março 7, 2017|Posted in: Histórias

Em 2009, a ativista norte-americana Sarah Shourd foi presa com dois amigos pela polícia iraniana próximo a uma cachoeira na fronteira com o Iraque. Ao contrário dos seus amigos, que compartilharam a cela, ela ficou sozinha por 410 dias na sua cela, acusada de espionagem. Ela afirma que após algumas semanas na prisão, “você é reduzida a um estado animal. Quero dizer, você é um animal numa cela e a maior parte do tempo é gasta caminhando de um lado para o outro. E o estado animal eventualmente se transforma em um estado de planta: sua mente reduz e seus pensamentos ficam repetitivos.”

Em determinados momentos do dia, o sol atingia um ângulo, cujos raios entravam na cela e levantavam partículas de poeira. “Eu via todas essas partículas de poeira como outros seres humanos ocupando o planeta. E eles estavam na corrente da vida, interagindo uns com os outros, ajudando uns aos outros”

Privado de interação social, o cérebro de Sarah começou a criar uma realidade própria, com seres com os quais precisava interagir. Ela experimentou o oposto do que vivemos dia a dia em sociedade. Nossos cérebros são alimentados diariamente com o contato social. Daí advém o que chamamos de empatia: quando somos sensibilizados por situações que os outros vivenciam. Diversas experiências já comprovaram que nossas emoções são afetadas quando vemos outras pessoas sorrindo, chorando ou sentindo dor.

Na prática, nossos cérebro são alimentados pelos cérebros dos outros e podem ter danos perenes se forem exilados dessa interação. É por isso que as histórias nos preenchem tanto. Elas nos envolvem, seduzem e hipnotizam. Sabe quando “aquele seu tio ou tia malucos” fica conversando com o personagem da novela ou do filme? “Não faça isso, Ana, ele vai matar você.” Ou quando você sua frio e pula de susto numa cena de filme de terror? Ora, você sabe que é ficção – racionalmente -, mas seu corpo ignora isso e se comporta como se estive pronto para ajudar o próximo ou para fugir desesperadamente.

Graças à empatia, somos capazes de gestos como torcer pela mocinha ou o mocinho (não se esqueça dessa palavra) da novela – que sabemos ser ficção -, cuidar de crianças órfãs, e de ajudar desconhecidos. Mas por que isso acontece? Na prática, nosso cérebro funciona como se sentisse dor pelos outros. Como pontua o neurocientista David Eagleman, sobre os personagens das histórias, “você se transforma neles, vive a vida deles, e vê pelo ponto de vista deles. Quando você vê outra pessoa sofrer, você pode tentar dizer para si mesmo que é um assunto dela, não seu – mas os neurônios no fundo do seu cérebro não podem perceber a diferença. (…). Isso levanta uma questão. Nossos cérebros são dependentes de interação social?” Pela história vivenciada por Sarah Shourd tendemos a acreditar que sim.

Kosovo-1

“Quando você vê outra pessoa sofrer, você pode tentar dizer para si mesmo que é um assunto dela, não seu – mas os neurônios no fundo do seu cérebro não podem perceber a diferença.”

 

 

O outro lado

A questão muda quando olhamos para o outro lado da empatia. O que acontece quando, para defendermos alguém de quem gostamos, nos confrontamos com outro grupo. Desde pequenos ouvimos dos nossos pais que eles desejam que os seus filhos sejam os melhores. Nas ruas dos nossos bairros, aprendemos desde jovem a nos comportar defendendo o que é nosso: a família, o gênero, a etnia, o time de futebol, a profissão, a visão política. A teoria é simples: ao pensarmos parecido e cooperarmos pela ideia em que acreditamos, deixamos o grupo mais forte. Isso ajudou o ser humano a povoar o planeta inteiro, criar nações, desenvolver novas tecnologias e se tornar o “grande dono da Terra”, ao menos em teoria.

Por outro lado, como consequência inevitável, para cada pessoa “do grupo”que pensa como nós, há uma pessoa “fora do grupo”, que inconscientemente acabamos por combater. Racionalmente, você pode defender que é possível conviver com o pensamento oposto. Mas na prática é muito, muito, muito mais difícil do que pensamos.

Em 1976 Richard Dawkins (muito antes de sair em uma empreitada quixotesca pelo ateísmo) criou o conceito de meme: “unidade de transmissão cultural que pode de alguma maneira autopropagar-se”. Assim como o gene é a unidade de transmissão genética hereditária a qual todos estamos submetidos (se seus pais são de origem nórdica você não vai ser japonês, a menos que o leiteiro seja), da mesma forma acontece com os memes. São ideias básicas, conceitos, pensamentos que nós achamos que dominamos. Mas a história da humanidade, de um modo geral, tem demonstrado que ocorre o oposto.

Quer ver? A popularidade e o apoio a Hitler eram maciços durante o holocausto. A população católica apoiou durante muito tempo a caça e a queima de bruxas na Idade Média. Mais de 800 pessoas cometeram suicídio coletivo na Guiana Francesa sob o comando de Jim Jones, acreditando que seriam salvos. O coro dos hebreus foi a batida do martelo para a morte de Jesus. “Crucifica-o!”

Isso acontece porque, acima de tudo, nosso cérebro, o grande manda-chuva, trabalha para nos defender, como indivíduo e como espécie. E em situações de ameaça, o inconsciente age muito mais rápido do que o consciente. Só que a ameaça não é mais o leão que podia roubar nossa caça e nos matar, como há 15 mil anos. Agora tememos “a perda do emprego”, “o aumento da violência”, “o preço das coisas”…

Responsável por consumir cerca de um terço das energias adquiridas pelo corpo, o cérebro trabalha o tempo inteiro para resolver nossos conflitos diários. E a maioria deles se desenrola na esfera inconsciente, porque o consciente consome muito mais energia para trabalhar. A complexidade da vida, dos sistemas políticos e do comportamento dos seres humanos acaba sendo resumido pelo inconsciente: mocinhos (lembre-se dessa palavra de) ou bandidos. Nosso ou deles? Certo ou errado? As pessoas não querem refletir verdadeiramente sobre a criação dos sistemas políticos, sobre a relatividade das leis sobre o sistema de representação política e os seus níveis de funcionamento e manobras infinitos.

Elas só querem acabar com a corrupção, porra! Porque é mais fácil, porque parece simples e porque geralmente vamos colocar nas mãos dos outros (chefes, políticos, polícia etc). Só que a vida não é assim, simples. E para criar uma sensação de harmonia e coerência – bingo -, nosso cérebro vai criar histórias e narrativas e acreditar em muitas delas piamente.

trnopolje-concentration-camp-bosniak-bosnian-muslim-man-emaciated-bbc-tv-crew1

 

“Entre 1992 e 1995, mais de 100 mil muçulmanos bósnios foram dizimados pelos sérvios. Em todos esses casos, o governo teve apoio maciço da população.”

 

 

Em 1915, os turcos-otomanos mataram mais de um milhão de armenos. Em 1937, os japoneses invadiram a China e mataram centenas de milhares de civis. Entre 1992 e 1995, mais de 100 mil muçulmanos bósnios foram dizimados pelos sérvios. Em todos esses casos, o governo teve apoio maciço da população.  O neurocirugião Itzhak Fried, que estudou diversos casos de violência ao redor do mundo, sustenta que em todas essas situações acontece o que se conhece por Síndrome E: “uma diminuição das reações emocionais, que permite atos repetitivos de violência”, muitas vezes com hiperestímulo desses atos. No cérebro, o que acontece é que “funções como linguagem e memória estão intactas” (continuamos a cuidar e ter carinho por nossa família), mas por outro lado “há uma grande alteração cerebral em áreas que envolvem emoção e empatia”. Continuamos a ser nós mesmos (acreditamos nisso, ao menos), mas nossos julgamentos emocionais, nossa sensibilidade emocional e nossa capacidade de empatia está totalmente desregulada.

Mas como justificar essas ações para nós mesmos? Uma boa parte da resposta pode estar na propaganda, que faz com que vejamos algumas pessoas como mais “iguais a nós” do que outras. Nossos cérebros têm uma habilidade tremenda de reconhecer rostos. Quando vemos ou interagimos com humanos, o córtex médio pré-frontal (mPFC) é ativado, o que não acontece quando vemos objetos. Um estudo conduzido por Lasana Harris, da Universidade de Leider, na Holanda, concluiu que o mPFC fica menos ativo quando olhamos para mendigos ou drogados. “A pessoa nos parece mais um objeto do que um humano”, conclui David Eagleman. “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros”, nos antecipou George Orwell, em a Revolução dos Bichos.

No caso dos sérvios e bósnios muçulmanos, esse componente desumanizador foi vastamente utilizado pela rádio e televisão da sérvia, que estava nas mão do governo. Nas situações mais bizarras, notícias distorcidas contavam histórias de muçulmanos que que estavam alimentando leões com crianças sérvias. Olhando de fora, mais de 20 anos depois, pode parecer patético que a população sérvia tenha acreditado nessas histórias. Mas o que explica que três das cinco notícias mais propagadas pelas redes sociais às vésperas da votação do impeachment no Brasil eram falsas? E as influências do compartilhamento de notícias falsas para a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos? Onde está a habilidade humana de discernimento?

O mestre zen Kodo Sawaki em uma reflexão iluminada sustenta que: “quando as pessoas estão sozinhas, elas não são tão más. Entretanto, quando um grupo se forma, ocorre uma paralisia; as pessoas ficam totalmente insensatas e não conseguem distinguir o bom do mau. As mentes deles estão agrupadas pelo coletivo. Por causa do desejo de pertencer e até mesmo de perder a si mesmos, alguns pagam “taxas” de pertencimento. Outros trabalham na propaganda para atrair mais pessoas e intoxicá-las de alguma forma: política, espiritual ou comercial.”

Uma fumaça de esperança

Em sua viagem pelo espaço, o astronauta Russell “Rusty” Schweickart viu nosso planeta por inteiro. Após a experiência, ele afirma que desenvolveu um extraordinário conhecimento pessoal da interdependência de toda a vida: “Quadros e fronteiras pelas quais lutamos não são reais da perspectiva do espaço. A responsabilidade individual advém da experiência direta de ver nosso planeta como um todo. E, compreendendo a velocidade da comunicação hoje em dia, a corrida espacial, as viagens e satélites, que se percebe que não há espaço para a ideia de ‘nós e eles’. E que nós temos que entender que a situação real é que nós, como formas de vida em nosso planeta, estamos todos interconectados, e que o nosso comportamento e o os nossos sistemas e a nossa atitude é que deve ser reconhecida e refletida como realidade”.

nasa_earth_official

 

“Quadros e fronteiras pelas quais lutamos não são reais da perspectiva do espaço. A responsabilidade individual advém da experiência direta de ver nosso planeta como um todo.”

 

Mas como olhar de fora para nós mesmos? Há uma solução? A primeira, na minha opinião, seria aceitar que construímos histórias (todos nós!) e que precisamos, antes de tudo, parar de vê-las como verdades. Kodo Sawaki, novamente, tenta nos ajudar a enxergar uma luz no fim do túnel: “tudo é apenas um sonho. ‘Realidade’ é apenas a realidade de um sonho. As pessoas acham que revoluções e guerras são espantosas, eles estão presos em um sonho. Quando você morrer, você verá facilmente, ‘oh, aquilo era apenas um sonho’. Quando você sonha, é difícil saber que você está sonhando. Se alguém belisca sua bochecha, você pode sentir dor; essa dor também é sonho. Nós interagimos com os outros em um sonho, então nós não reconhecemos os sonhos como os sonhos. Todos estão vivendo seus próprios sonhos. O problema é a divergência entre esses sonhos.”

David Eagleman traz outra história que pode ser inspiradora:

“Era 1968, um dia após o assassinato do líder de direitos civis, Martin Luther King. Jane Elliot, professora numa pequena cidade de Iowa, decidiu demonstrar para sua classe o que isso significava. Jane perguntou a sua turma se eles sabiam o que era sentir na pele ser julgado pela cor dos olhos ou da pele. A maioria dos estudantes achava que sim. Mas ela não estava tão certa disso, então ela lançou o que se tornaria um famoso experimento. Ela anunciou que as pessoas com olhos azuis eram as “melhores na sala”.

Jane Elliot: As pessoas com olhos castanhos não podem usar o bebedouro. Vocês vão ter que usar os copos de papel. Vocês, pessoas de olhos castanhos, não podem brincar com as pessoas de olhos azuis no playground porque vocês não são boas como elas. A partir de hoje, as pessoas com olhos azuis vão vestir colares. Assim nós conseguimos dizer à distância de que cor é o seu olho. Todo mundo está pronto. Todos, menos Laurie. Pronto, Laurie?

Crianças: Ela tem olhos castanhos.

Jane Elliot: Ela tem olhos castanhos. Vocês vão começar a perceber hoje que nós gastamos um tempo enorme esperando pelas pessoas de olhos castanhos.

Um momento depois, Jane olhou à volta e dois meninos estavam em pé. Rex apontou para onde estava a divisão das pessoas e Raymond prestativamente se ofereceu: “Hey, Mrs. Elliot, é melhor você manter seus pertences na sua mesa, ou as pessoas de olhos marrons podem pegar”.

Décadas depois Eagleman entrevistou Raymond, que disse ter sido “tremendamente cruel com meus amigos” (…) “e eu era o perfeito nazistinha. Eu procurava meios de ser cruel com meus amigos, que minutos antes eram bem próximos de mim.

No dia seguinte, a professora mudou a regra, e fez as crianças de olhos azuis sentirem na pele o que era ser rejeitado e excluído pela cor de seus olhos. “É como pegar o seu mundo e despedaçá-lo como se ele nunca tivesse sido despedaçado antes. Isso fez com que Raymond estivesse abaixo de todos, o que o deixou com uma sensação de perda gigantesca, fazendo com que seu “eu”não funcionasse.

“Uma das coisas mais importantes que aprendemos como humanos é a ‘escolha de perspectivas’”, conclui Eagleman. Quando alguém é forçado a entender o que é estar aos pés do outro, isso abre novos caminhos cognitivos”, conclui Eagleman.

Mas para isso, precisamos, antes de tudo, olhar nossas histórias como histórias (ainda que belas), nossos devaneios como sonhos, e nossas escolhas como perspectivas. Urgentemente!

Deixe uma resposta


You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

*