Programados para contar histórias

Março 2, 2016|Posted in: Histórias

Nos últimos anos, entramos na era dos gurus que prometem ensinar a arte do “storytelling”- pra usar a expressão que o mundo corporativo adora – e como ganhar dinheiro com ela. O termo tem feito tanto sucesso que, de acordo com Adilson Xavier em Storytelling: histórias que deixam marcas, em 2013 no Festival Internacional de Criatividade de Cannes, quinze seminários tinham como tema principal o storytelling para falar sobre os novos rumos da publicidade.

Eles têm razão… em partes. Talvez porque contar histórias – se me permitem escrever em bom português – está e sempre esteve presente na essência do ser humano. Você, eu, e até o vizinho estranho e quieto do andar de baixo, somos contadores de histórias (e talvez ele seja tão bom ou melhor do que você). Isso está programado no nosso DNA há pelo menos uns 30 mil anos, quando os homens das cavernas narravam através de pinturas rupestres.

As primeiras histórias, tataravós da literatura contemporânea – e ainda presentes em nossa sociedade – são os mitos. Como observa Joseph Campbell, no seminal O herói de mil faces, “em todo o mundo habitado, em todas as épocas, e sob todas as circunstâncias, os mitos humanos têm florescido; da mesma forma, esses mitos têm sido a viva inspiração de todos os demais produtos possíveis das atividades do corpo e da mente humanos”.

forgotten_dreamsCaverna dos sonhos esquecidos, de Werner Herzog, explora a beleza das pinturas rupestres

Somos animais contadores de histórias, muito antes de construirmos cidades, inventarmos constituições, domesticarmos os animais. Sense 8, Game of Thrones, As aventuras de Popeye, Madame Bovary, Tristão e Isolda, a Bíblia, a história de Buda, Ilíada e Odisseia, Gilgamesh, as fábulas de Esopo, pinturas rupestres… todos esses produtos culturais integram o mesmo novelo das narrativas desenrolado ao longo dos séculos. Essa habilidade humana supera civilizações, se espalha e contamina as narrativas de povos inimigos e eleva as histórias a uma das categorias mais valorizadas da arte humana – especialmente, a ficção.

Mas por que o ser humano de dez mil anos atrás – que precisava lutar contra animais muito mais fortes, conseguir comida no braço e usar a criatividade para enfrentar a fúria da Natureza – gastava tempo e valorizava arte de contar histórias irreais ou fictícias. E por que hoje, em que vivemos em um mundo repleto de trapaças, em que estamos sempre atentos para não sermos passados para trás – na loja, no banco, no trabalho – passamos horas e horas assistindo a séries na Netflix, transformando filmes em blockbusters milionários e se enlevando com a literatura fantástica? Por que damos tanta atenção à ficção?

Para além do consenso e do senso comum que a pergunta possa suscitar, o professor de literatura e perito mundial em Nabokov, Brian Boyd, tem uma sugestão, que ele apresenta no calhamaço On the origin of stories. Combinando evolução, cognição e ficção em um estudo ousado, o autor neozelandês sugere que o ser humano se transformou em um contador de histórias porque isso foi vantajoso evolutivamente. “Nossa capacidade de pensar além do aqui e agora fez com que nossa espécie fosse completamente diferente. Isso levou a uma série de explicações muito mais profundas do que as visíveis. Até o surgimento da ciência, essas explicações sobrehumanas foram demasiado humanas e falhas.” Estamos falando dos mitos, das lendas e superstições que integram o universo das narrativas fantásticas ao redor do mundo.

Mas mesmo a ciência “não poderia ter começado sem nossa persistente inclinação e habilidade para pensar além do aqui e do agora, para inventar agentes e cenários, não se limitando ao real ou o provável, mas explorando também o meramente possível ou o assustadoramente improvável”.

originBria Boyd explora as histórias como produto biocultural humano

Boyd explora o assunto ostensivamente, debruçando-se sobre a capacidade humana de recontar eventos – sejam reais ou não – e de aprender com essas narrativas, mesmo que a mensagem esteja presente metaforicamente. Para tanto, ele analisa sob esse prisma duas obras separadas pelo tempo: o clássico grego Odisseia, e os títulos infantis do aclamado Dr. Seuss, colocando-as sob o mesmo questionamento: “por que contamos e disseminamos essas histórias?”.

Mais do que isso, se o mundo é repleto de perigos, especialmente quando somos enganados (pense no golpe do bilhete premiado), por que, então gastamos tanto tempo lendo, assistindo e alimentando narrativas reconhecidamente fictícias? Qual é a vantagem evolutiva disso?

A resposta se sustenta na ideia da metáfora, da mensagem passada. Mesmo as histórias fictícias apresentam mensagens, morais, padrões de comportamento que devem ser seguidos ou que serão punidos. Quando nos debruçamos sobre o universo dos mitos e das histórias religiosas, que buscam explicar o mundo e dar norte e sentido para a vida humana na Terra, a reflexão do autor faz ainda mais sentido:

“acreditar em espíritos invisíveis que em qualquer situação podem nos observar sem serem detectados nos inclina – a todos – a nos comportarmos com mais frequência com modos geralmente aprovado por todos – com modos que contribuem para a cooperação do grupo mais do que vantagens individuais. Como espécie, foi necessário e vantajoso que o ser humano trabalhasse em prol do grupo, do coletivo, da espécie.”

Como afirmou o escritor de Burkina Faso Malidoma Patrice Somé, “a real polícia da vila é o Espírito que vê todo mundo. Fazer algo errado é insultar o reino do espírito. Qualquer um que fizer isso é imediatamente punido pelo espírito”. As frases “Deus tá vendo”, “Aqui se faz aqui se paga” e “Deus castiga” fazem algum sentido?

Na próxima vez que assistir a um episódio de House of Cards, por exemplo, preste atenção nas reações que você tem diante dos comportamentos de Frank Underwood. Surpresa, compaixão, medo? Também somos programados a reagir a esses padrões e a esconder aqueles que não estão de acordo com o consenso social.

Claro que, individualmente, podemos refletir de modo racional a essas programações genéticas, mas no meio da manada humana, são poucos que trazem isso para a consciência. Apesar da leitura densa e do inglês acadêmico (não há edição em português), recomendo fortemente a obra de Boyd para quem quer oxigenar a discussão e refletir sobre o ser humano como um animal contador de histórias.

Fato que ilustra essa nossa relação inconsciente e irrefreável com as histórias é o experimento inédito feito pelos pesquisadores norte-americanos Joshua Glenn e Rob Walker. Crentes que as histórias conferem valor e significado ao mundo material, especialmente aos objetos, eles decidiram testar o “real valor” das histórias, e publicaram o resultado no livro Significant Objects.

Para colocar à prova esse valor, adotaram um procedimento que parece receita de bolo: primeiro eles compraram 100 bugigangas, objetos, como frutas de plástico, canecas, velas, pratos e outras velharias. Pagaram uma pechincha por tudo. Ao todo, desembolsaram U$ 128,74, uma média de U$ 1,28 por objeto. Em seguida, desafiaram 100 escritores a criarem histórias inspiradas em cada um dos objetos. A regra era simples: inventar uma história que fizesse referência a um dos objetos. Os desafiados não decepcionaram: escreveram cartas, quadrinhos, diários, contos e o que mais você conseguir imaginar, a respeito dos objetos. Uma história por objeto. Em seguida, colocaram os objetos à venda no Ebay e utilizaram a respectiva história criada como descrição do objeto. O preço de venda inicial era exatamente o que eles haviam pago no início do experimento.

russian-figure-550Conto fantástico sobre santo russo valorizou esse boneco feio em 6.350%

A ideia deles era testar a seguinte hipótese: “as histórias são um condutor de valor emocional tão poderoso que o seu efeito sobre o valor subjetivo de qualquer objeto pode realmente ser medido objetivamente”. A confirmação para a hipótese veio em forma de números: vendidos atrelados às histórias, os objetos renderam U$ 3.612,51, um aumento de mais de 2.700% em relação à compra original. As histórias fizeram com que o valor monetário dos objetos subisse astronomicamente. Um boneco russo que custara U$ 3, por exemplo, foi vendido por incríveis U$ 193,50.

O projeto causou certo alvoroço no mercado norte-americano, deixando jornalistas, escritores e marqueteiros em frenesi. “Nossa pesquisa inovadora, ouvimos mais de uma vez, provava ser extremamente útil para deixar produtores e marqueteiros ansiosos para utilizar o poder da narrativa nas vendas”, escreveram.

Obcecados por como contar histórias, esses especialistas adaptam, repetem e cacarejam fórmulas à exaustão, muitas vezes eficazes. Fascinados pela “descoberta” do storytelling, eles colocaram a narrativa num pedestal do qual, na verdade, ela nunca saiu. Cada ser humano carrega como que um chip que o torna programado para contar e ouvir histórias, ler e assistir, uma herança genética que perpetuamos, ao longo dos milênios, insistindo em transformar o como, mas sem alterar a essência do o que.

Das grandes jornadas presentes nos mitos contados ao redor das fogueiras aos diálogos e monólogos de House of Cards, criamos, recriamos e modificamos métodos, mas continuamos a apreciar uma boa história. Vamos nos degladiar eternamente tentando conceituar o que é uma boa história, mas nossos genes injetam atenção, todas vezes que somos expostos a uma boa história. O próprio Kevin Spacey, que dá alma à Frank Underwood na série da Netflix, comentou em uma entrevista no Fórum Econômico Mundial sobre a importância da escolha da histórias/roteiro em que vai mergulhar ao aceitar um personagem.

Se o caminho escolhido por esse texto lhe parece duro e um tanto biocultural demais, deixo para Joseph Campbell a reflexão mais simbólica e espiritual, que por coincidência preenche a necessidade que nossos cérebros têm de dar sentido ao que vivemos, e que nos torna, mais uma vez, animais programados para contar histórias:

“‘A principal tarefa da linguagem é afirmar ou negar os fatos’. A tarefa mais usual da linguagem, entretanto, tem sido motivar a ação e, para esse fim, incitar o medo, a raiva ou o desejo, doutrinar, tergiversar, intimidar e fazer lavagem cerebral. Na realidade, afirmar ou negar a ‘realidade’ é a última coisa para a qual a linguagem tem sido usada. ‘Ficção, antes, seria o termo honesto a ser usado por esse mestre da clareza – pois, como Nietzsche já sábia, o que quer que possa ser pensado, só pode ser ficção’.”

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