Lá vem história: as irmãs Vida e Morte

Janeiro 27, 2016|Posted in: Histórias

“Contar histórias é contar-se”, nos lembra o professor e contador de histórias Cleber Fabiano da Silva. Há pelo menos 30 mil anos, o ser humano constrói narrativas fantásticas, míticas e históricas como uma extensão de sua existência. Para os índios Kamayurá, do Alto Xingu, os humanos surgiram de troncos de árvores (kuarup). Homero narrou as peripécias dos gregos para transcender a morte e entrar na eternidade, eternidade que perpetuamos e ressignificamos através de filmes, livros, jogos… a todo momento.

Confesso que as histórias sempre foram parte essencial da minha vida. Mas foi durante a faculdade de jornalismo – entre um causo exagerado e outro que eu costumava contar – que meus grandes amigos me apelidaram de Forrest Gump Senta que lá vem história. Apesar do joinha que desejei a eles, essa brincadeira foi determinante para, anos depois, eu ingressar no universo sedutor que é contar histórias.

kuarupRitual do Kuarup celebra a criação da humanidade

Por isso, em homenagem a esses grandes amigos, que ainda não se cansaram de ouvir meus causos, lanço hoje a seção “Lá vem história”, que vai trazer, periodicamente, sugestão de contos para serem narrados, contados, lidos… contos que nos tocam. E para o pontapé inicial, uma história cujos protagonistas sintetizam os dois temas mais abordados pela humanidade até hoje em suas narrativas: vida e morte.

Foi no encontro de contadores de histórias “Cántaro de cuentos”, na Colômbia, ano passado, que ouvi uma história sobre duas irmãs – vida e morte. Contada em espanhol com grande sensibilidade pelo argentino Esteban Gonzalez, a narrativa me obrigou a disfarçar as lágrimas. Não pude deixar a Colômbia sem interrogar Esteban e descobrir que a história das duas irmãs poderia ser encontrada no livro El lápiz del carpintero, obra que usa a Guerra Civil Espanhola como pano de fundo para trazer à tona personagens fantásticos e histórias como essa, que agora adapto e divido com vocês:

***

As irmãs Vida e Morte

Em um lugar chamado Mandouro viviam duas irmãs. Viviam sozinhas, em uma casa de fazenda que tinham herdado de seus pais. Da casa se via o mar e muitos navios passavam por ali rumo aos mares do sul. Uma das irmãs se chamava Vida e a outra, Morte. Eram duas boas meninas, saudáveis e alegres.

Sim, a morte também era bonita. Ela era bonita, mas temperamental. O fato é que as duas irmãs se davam muito bem. Como tinham muitos pretendentes, haviam feito um juramento: poderiam flertar e até mesmo ter casos com homens, mas nunca iriam se separar uma da outra. Eram leais uma a outra.

Nos dias de festa, dançavam juntas em um lugar onde iam todos os jovens daquela vila. Para chegar lá, elas tinham que atravessar uma terra pantanosa, com muita lama, conhecida como Fronteira. Nesse lugar, as irmãs iam com seus sapatos nas mãos. Os da Vida eram pretos e os da Morte, brancos.

Não era o contrário?

Não. Era como eu digo. Na verdade, as duas irmãs faziam como todas as meninas. Elas cruzavam a fronteira com os sapatos nas mãos para ficarem limpos quando fossem dançar. Assim se reuniam na frente do baile uma centena de pares de sapatos femininos, como pequenos barcos em uma caixa de areia. Os garotos, não. Os meninos vinham a cavalo. E se contorciam em seus cavalos para impressionar as meninas.

E assim o tempo passou. As duas irmãs dançavam, saciavam suas vontades, mas sempre, mais cedo ou mais tarde, eles voltavam para casa, juntas. Uma noite, uma noite de inverno, aconteceu um desastre. Por que, como você sabe, este foi e é um país de muitos naufrágios. Mas foi uma destruição muito especial. O navio, chamado Palermo, tinha sido carregado com acordeons. Mil acordeons embalados em madeira. A tempestade afundou o barco e arrastou a carga até a praia.

Acordeons soaram a noite toda, uma música um tanto triste. A música chegava às casas pelas janelas, empurrada pelo vento. Como todas as pessoas da região, as duas irmãs acordaram e ouviram aquele som misterioso. Na manhã seguinte, encontraram os acordeons jogados na areia, como cadáveres afogados.

vida e morte

Todos estavam estragados. Todos, menos um. Ele foi encontrado por um jovem pescador em um gruta. Foi uma sorte tão grande que o jovem aprendeu a tocá-lo.

Ele era um menino alegre, cheio de vida, e o acordeon caiu em suas mãos como uma graça. A Vida, ao escutá-lo tocando, tornou-se tão apaixonada por ele que acabou se esquecendo de sua irmã. Numa manhã de tempestade, os dois fugiram juntos, porque a Vida sabia que a Morte tinha um temperamento perverso e que podia ser muito vingativa.

E assim aconteceu. A Morte esperou a irmã por muito tempo, achando que ela ia se cansar da beleza do jovem e voltar para casa. Mas isso nunca aconteceu e ela jamais perdoou a irmã. Ficou enraivecida por toda a eternidade.

Por isso dizem que, desde aquele dia, ela caminha pelas estradas, especialmente em noites de tempestade, e bate nas casas em que há sapatos pretos nas portas. Quando alguém atende, ela pergunta: “sabe de um jovem acordeonista que anda pra cima e pra baixo com a puta da vida?”

E, cheia de raiva, ela leva embora todos aqueles que respondem que não.

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