o salto

Janeiro 20, 2016|Posted in: Histórias

A vontade de compartilhar textos, ideias e experiências me causa uma coceira que tem aumentado ao longo dos anos. Sempre pensei, porém, que fazia coisas demais e que incluir mais um “compromisso” só me deixaria mais louco. Diferentes trabalhos, diferentes projetos… para que mais um? Permaneci com essa angústia até o dia em que um senhor me visitou em um sonho. Estávamos em uma lanchonete engordurada. Ele usava um chapéu surrado e sentou-se na banqueta ao meu lado. Pediu um pingado e um pão com manteiga na chapa e começou a falar, sem me olhar. No começo até achei que pudesse se tratar de um louco, mas conforme a narrativa evoluía, tinha a estranha sensação de que falava diretamente a mim, ainda que não tenha movido o pescoço em minha direção durante tudo o que agora, tento transcrever:

***

Confesso, toda vez que ouço a história de alguém que se jogou do alto de um prédio para a morte, aprecio a narrativa como se fosse uma pintura de Van Gogh: triste, assustadora, mas ainda assim terrivelmente bela. Não é o suicídio que chama minha atenção, mas a irreversibilidade do trajeto entre o cume e o chão. Não há como voltar atrás depois de um salto. Pode-se passar poucos ou muitos segundos, pensamentos, vontades, mas o corpo segue em apenas uma direção.

Sua vida, meu amigo, é um longo salto. Sem saber, durante nove meses subimos as escadas de um edifício desconhecido para, no momento do corte do cordão umbilical, saltarmos para a vida e – como duas faces de uma moeda – à morte. Seu salto pode durar horas, 27 anos ou oito décadas. Não faz diferença, o relógio não está em suas mãos.

Também não foi você quem decidiu saltar. Jogaram você do precipício. Está em suas mãos apenas honrar o salto, o vento que sopra, as pessoas que passam, o dia e a noite. Não há como evitar o choque final ao chão, em que salto e existência encontram o seu fim.

O que você vai fazer durante o seu salto? Essa dúvida recorrente costuma me encontrar algumas noites. Sentamos para beber juntos. Eu, uísque, ela, vinho. Meus goles são curtos e ansiosos, enquanto ela se diverte às minhas custas, bebendo vagarosamente. Não mais que uma taça. Debatemos a essência do salto madrugada adentro. Coloco à prova minhas crenças, meu trabalho, viagens, arrependimentos… tudo o que consigo lembrar. Seguimos assim até que os primeiros raios de luz riscam o céu e entram no pequeno cômodo. Acabamos sempre quando ela se funde ao meu cansaço, não sem antes tomar o último gole de tinto e me repreender:

Pare de pensar sobre o seu salto. Você continua em queda livre e agora já está mais próximo do chão do que há pouco.

PrijokNão há paraquedas

 

Depois de nossas conversas, costumo acordar com a sensação de que o salto é tudo o que tenho e somente o que importa. Cair é algo realmente importante. Como cair, ainda mais. É por isso que sempre que alguém se joga para a morte, minhas pupilas se dilatam de atração. Quero saber como e onde aconteceu. Fico imaginando a queda e os pensamentos, as dúvidas que envolveram a pessoa naqueles segundos decisivos.

Obviamente não comento sobre essa minha curiosidade com ninguém. Observo a necessidade de parecer normal diante dos outros. Apenas alimento meu interesse com pensamentos que sussurram. Construo cenas em minha mente, observo as expressões faciais dos protagonistas, vejo os medos por de trás da carne, viajo pelo pensamento dos familiares e amigos que tocam sua vida no automático sem perceber que o salto está para acontecer…

Dia desses soube de um novo salto. Um salto que só começou, um salto que, como todos os outros, sabemos onde vai parar. Mas, como todo salto, o que me atrai é a queda em si, a jornada, que não sei ainda como vai ser, mas que vou ficar de olho. Se eu fosse vocês, acompanharia também, a cada detalhe. Porque depois não adianta, o salto da vida não tem paraquedas.

***

Desde que esse velho me contou essa história, passei a ver a vida como um salto. Depois que ela começa, não existe voltar atrás. A caminhada segue em direção à própria extinção. Dessa forma, tudo o que acontece na vida é o salto. Vivenciá-lo é o que pode haver de mais importante.

Foi digerindo essa narrativa onírica que me veio à mente a ideia do blog o salto. A história deu um tapa com as costas da mão em minhas ansiedades. Não faço tantas coisas assim, não há razão para receio. Só a queda existe. E por isso, pretendo usar esse espaço pra reunir o que há de mais importante em meu salto.  Contos, músicas, viagens, reflexões, dicas para as aulas que ministro – de literatura indígena, narrativa mítica e neurociência… vou usar esse cantinho pra compartilhar um pouco do que venho construindo nos últimos anos: o âmago de minha queda.

Como toda queda é individual, esta vai estar recheada de mim. Mas acredito que eventualmente os saltos de duas ou mais pessoas se cruzam no meio do caminho. E esses encontros são momentos em que conseguimos parar o tempo, parar no ar, ainda que a queda continue logo em seguida.

Por acreditar nesses encontros é que o salto está hospedado na página do Sê-lo, iniciativa que fundou um coletivo de escritores, artistas, buscadores e outros malucos. É um projeto que apoio desde a gestação. A proposta coletiva e independente da editora foi determinante para me seduzir e me levar a decisão de dividir meu salto com vocês. E assim, sem certezas e abraçados ao acaso, começamos.

3 Comments

  1. Eliane
    Janeiro 22, 2016

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    Grande, guri!!!

  2. Aline Paola
    Janeiro 26, 2016

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    Esse garoto é demais!!! Estou aqui perplexa, seu salto, com certeza não será em vão…

  3. Gloria Kirinus
    Fevereiro 12, 2018

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    O saber onírico nunca se engana. Que bom você puxar um fio desse saber e partir para O Salto. Estamos aqui, pertinho de você, para acompanhar sustos, surpresas e descobertas no seu tempo precioso sem paraquedas. Abraços desde Curitiba!

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