Sabedoria de um lobo do mar: “Viva modestamente no mundo moderno e realize seus sonhos”

Joseph Campbell disse que se você abandonar a sua “bem aventurança”, aquilo que faz seu coração vibrar, para ganhar dinheiro, você perdeu a sua vida. No mundo moderno, porém, isso pode soar absurdo. Como falar em seguir o coração em escolhas profissionais e outras escolhas de vida quando mesmo conseguir um emprego medíocre pode se mostrar uma tarefa hercúlea? E o que dizer sobre o oceano de pessoas que, para sustentar suas famílias e a nossa sociedade de consumo, passam a vida recolhendo lixo, catando latinha, escravizadas em fábricas de laptops, smartphones, plantações de cana, olarias, oficinas de costura?

Essas são questões inesgotáveis. Uma das respostas me parece ser que as escolhas desse outro oceano de gente – nós, que temos tempo para ler blogs e discutir o sentido da vida  – são peça-chave da engrenagem que escraviza todos nós. É em grande parte graças ao nosso estilo de vida baseado num consumismo irresponsável e na busca por segurança e conforto inalcançáveis que os poderosos esquemas econômicos e políticos continuam tomando conta das nossas vidas. Mas é só ir um pouco além das nossas rotinas e caminhos habituais para encontrar alternativas incríveis por aí. Um professor uma vez me disse: “Não tem jeito, tem que dar umas gotinhas de sangue pro sistema, mas não precisa dar um litro por dia.”

Na mesma linha, o lendário lobo do mar, lenhador e escritor checo Rudolf Krautschneider, o Ruda, conta como passou a vida navegando os sete mares:

“Como eu consegui dinheiro? Eu percebi que todo mundo tem o tanto de dinheiro que precisa. Talvez um pouquinho mais. Esse “um pouquinho mais” pode ser usado na construção de um veleiro, submarino, moinho, balão, telescópio, avião, castelo, em uma coleção de arte, ou na criação de cavalos. Qualquer um com um salário médio pode conseguir isso.

Esse um “pouquinho mais” pode ser usado nas suas cervejas diárias, em cigarros, drogas ou filé mignon. Para mobiliar apartamentos, casas de campo, mansões, para comprar um carro novo ou outras futilidades.

Talvez eu possa te dar um conselho. Fique rico!!! Como? É fácil. Gaste menos do que você ganha. Comece com coisas pequenas. Não compre nada que você ver anunciado. O meu conselho é insensato? Faça-me o favor! Se quiser ficar rico, jogue fora sua geladeira. A única vantagem é que a comida dura mais tempo nela, fazendo você estocá-la continuamente. Você sente remorso quando ela começa a esvaziar. Quando está cheia, você come porque ela está cheia. Uma geladeira é especialmente inútil se uma família não tiver crianças. Dê a sua de presente a um inimigo. Viva modestamente no mundo moderno para realizar os seus sonhos.”

Foi através de uma matéria na Carta Capital que ouvi falar do Ruda. Intrigado, fiz uma busca na internet e não encontrei quase nada sobre ele que não fosse em checo. Só uma única cópia usada de um livro dele em inglês, à venda na loja da Amazon do Reino Unido – agora em minhas mãos. O nome: Around the world for the feather of a penguin, ou “Volta ao mundo pela pena de um pinguim”. O livro é de 1999.

IMG_20151227_171124
Ilustrações de “Around the world for the feather of a penguin” por Ruda

Essa descoberta foi como encontrar um tesouro perdido. Ruda dialoga com o leitor como quem conversa olhando no fundo dos olhos, as suas palavras prenhas de uma sabedoria rústica e cheia de ternura. Reflexos de um espírito livre e sensível, que aprendeu a arte da vida entre as florestas da antiga Checoslováquia e todos os mares do mundo.

Com sabor de Alberto Caeiro e do zen budismo, ele fala do mar: “O oceano tem o seu próprio ritmo. Ele não é cruel nem gentil. Ele apenas é.” Entre outras coisas, seu livro é um encorajamento para os que sentem o chamado do mar. O próprio Ruda, ao longo da sua vida, proporcionou esse encontro para muitas pessoas, levando em seus barcos desde caroneiros até grupos de órfãos e pessoas com problemas com álcool e outras drogas. Para ele, o mar tem o poder da cura:

“Nos últimos tempos, graças ao consumismo tecnológico, muitas pessoas, e não apenas os jovens, têm sentido que a vida é vazia de signficado. Talvez o mar possa ajudá-las a recuperar o equilíbrio mental.”

Around the world for the feather of a pinguin é, de certa forma, sobre as pessoas que não se conformam com vidas vazias e partem em busca de sentido. Ruda narra, de forma graciosa, com pitadas de ironia, encontros com navegadores desconhecidos, andarilhos, aventureiros, pescadores, filósofos de bar, artistas de rua, aborígenes. É claro que ele mesmo também é um desses personagens.

Nascido num país comunista pobre, sem ligação direta com o mar, se fez lenhador e construiu com as próprias mãos a maioria dos seus barcos, entre eles o Polárka, que utilizou para realizar a temida navegação ao redor da Antártida, com seus amigos Vojta e Sorel. Ele não deixa de agradecer os patrocinadores:

“Eu tive dois grandes patrocinadores. Sem eles, a construção do Polárka e a consequente viagem pelo mundo não teria ocorrido. Na verdade, esses patrocinadores não são tão grandes. São as minhas filhas, Doubrava e Daniela.

[…]

Sou grato a Doubrava e a Daniela por me permitirem viver uma vida plena sem ter que me curvar aos ricos e poderosos deste mundo. Graças a elas, pude viver de acordo com um dos princípios básicos da existência humana: viver e não ter.

IMG_20151227_172235
Ilustrações de “Around the world for the feather of a penguin” por Ruda

Boa parte do livro é sobre a viagem a bordo do Polárka. O ponto culminante é a travessia do lendário Cabo Horn, no dia três de março de 1993, às 3h39 da madrugada, entre ventos fortes, altas ondas e neblina.

“Por trinta anos trabalhei como uma formiga, me arrastando persistentemente nessa direção. E agora Sorel, Vojta e eu conseguimos! Sem o apoio de nenhuma instituição ideológica. Não temos que fazer um relatório para ninguém sobre sobre os nossos sucessos ou fracassos. Nenhum oficial aprovou ou proibiu a viagem. Os patrocinadores puderam guardar seu dinheiro para clinicas oncológicas e orfanatos. E isso é prova o suficiente! Do que? Prova de que não temos que implorar, nos humilhar, mentir, fingir, ou lamber o sapato de ninguém para realizar os nossos sonhos de infância.

Assim como o tênis, a vela é considerada um esporte de colarinho branco. É incrível que a nossa tripulação consiste de um tratorista, um operador de máquinas agropecuárias e um lenhador.

IMG_20151227_201439

O lenhador Ruda reverbera todos os grandes mestres da humanidade ao proclamar:

“Você, meu leitor, é o soberano do mundo. O mundo é o que você faz dele. Se quiser que ele seja diferente, você tem que mudá-lo. E isso significa começar por si mesmo. Não, você não precisa navegar os mares, porque você tem uma família em casa. Não ligue a televisão ou a luz. Fique sentado no escuro e pense sobre si mesmo e os sonhos que talvez tenha traído. Não culpe o governo. Levante e corra na frente das casas dos cães odiosos. Somente você, o lobo liberto, pode enfrentá-los. Não espere por reconhecimento ou recompensa, porque alguma punição aparecerá no lugar.

Não fique enrolando e dizendo a si mesmo que um dia’ você vai, fingindo que não ouviu o chamado desesperado. Se existe alguém para salvar a humanidade, é você. Às vezes a pessoa tem que passar por uma batalha interna.

A liberdade existe apenas para aqueles que precisam ser livres.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *