Osho, desapego, e o anel de diamante da avó

Uma boa medida para saber se alguém tem algo de valor a te ensinar é a franqueza. Quando a franqueza vem acompanhada de sabedoria a ponto de pôr as suas crenças mais enraizadas à prova, aí então sabemos que estamos diante de um verdadeiro mestre ou mestra.

Os grandes mestres – seres que mergulham fundo no oceano da vida e retornam vivos à superfície – raramente passam a mão na cabeça, como atestam séculos de histórias de professores zen armados com bastões. O Osho, talvez o guru espiritual mais controverso e influente do século XX, não foi diferente.

O estilo iconoclasta e provocativo acompanhou o Osho durante toda a sua trajetória. Quando ainda era professor de filosofia na Índia nos anos cinquenta, se tornou célebre entre os alunos e mal visto entre o establishment acadêmico ao confrontar a divisão entre alunos homens e mulheres. Em 1968, numa série de palestras assistidas por dezenas de milhares, que depois se tornariam um dos seus primeiros e mais conhecidos livros, o Do sexo à Supraconsciência, escandalizou o ultraconservador mundo hindu ao falar contra a repressão sexual. Nos anos oitenta, quando vivia numa gigantesca comunidade no meio do Oregon, chocou os Estados Unidos ao ganhar noventa e três Rolls-Royce dos seus discípulos e tirar fotos dirigindo um diferente a cada dia – depois disse que enquanto os materialistas americanos o observavam boquiabertos, ele aproveitava para enfiar umas verdades pelas suas goelas.

Essas atitudes não convencionais para um religioso – sinais inegáveis de um charlatão ou aproveitador, para muitos – são à vezes chamadas no budismo tibetano de “sabedoria louca”, que tem como objetivo desestabilizar os preconceitos mais enraizados.

Azima Rosciano foi uma testemunha direta disso. No final dos anos setenta, recém-formado em medicina, esquerdista frustrado, desiludido com os valores ocidentais e com pensamentos suicidas, fez como uma multidão de outros jovens europeus e pegou a “trilha hippie” para a Índia. O inesperado encontro com o Osho e os doze anos seguintes na companhia do mestre são contados no seu livro My Life With Osho, lançado em 2013.

O livro não tem a pretensão de ser histórico e a narrativa é assumidamente pessoal. Isso só torna a história mais fascinante, temperada pela paixão não totalmente cega do italiano Azima, e pelo seu jeito franco de se expressar. E proporciona ao leitor um raro e interessante vislumbre das possíveis transformações psicológicas em experimentos espirituais como os levado a cabo por Osho.

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Azima e Osho, na capa de “My Life With Osho”

A vida ao lado do mestre era caótica, imprevisível, com mudanças drásticas e constantes. Segundo Azima, muitos desses desafios eram criados deliberadamente pelo Osho para chacoalhar seus discípulos contra apegos e visões de mundo estagnadas. Ao comentar sobre o grande número de discípulos que se desligou do mestre depois da experiência no Oregon ter se mostrado um fiasco, ele conta um causo relatado a ele em primeira mão pela indiana Neelam, uma das principais assistentes do Osho nos seus últimos anos de vida (ele morreu em 1990).

Nos anos sessenta, o marido da Neelam participou de alguns retiros de meditação com o Osho e, fascinado, tentou convencer a esposa a ir conhecer o mestre. Ela, que desprezava a difundida cultura dos gurus na Índia, que muitas vezes não passavam de conselheiros para assuntos aleatórios, não quis ir. Mas, depois da insistência de meses, finalmente concordou em ir a um retiro. A sua impressão foi tão forte que decidiu se tornar uma seguidora.

Como na Índia é tradição, quando você encontra um professor espiritual, oferecer um presente como símbolo do seu reconhecimento, o casal ponderou durante um bom tempo sobre o que oferecer ao Osho. Finalmente decidiram por um anel de diamante que tinha pertencido à avó da Neelam – o objeto mais precioso que tinham.

A oportunidade para a entrega do presente veio no próximo retiro. Um grupo de pessoas esperava em fila para receber bênçãos do Osho. Quando chegou a vez da Neelam, ela entregou a caixinha com o diamante ao seu novo mestre, recebeu a sua bênção e saiu da fila. Sem exitar, Osho deu o anel de diamante de presente para a próxima pessoa da fila, um homem desconhecido que nem tinha participado do retiro e só estava ali para ganhar uma bênção. A experiência foi profundamente chocante para a Neelam, mas ela não deixou de seguir o guru. Azima relata:

“Cerca de vinte anos depois do incidente com o anel, o Osho lembrou a Neelam do presente de diamante. Ele disse a ela: ‘Se você der um objeto a alguém como sinal de amor, você precisa se libertar totalmente dele, caso contrário isso não passa de uma tentativa de amarrar essa pessoa a você.'”

Frases assim, lidas num livro de autoajuda, ou mesmo ouvidas em uma palestra de algum mestre, geralmente entram por um ouvido e saem pelo outro. No máximo, causam uma inspiração momentânea e são compartilhadas no Facebook. Mas, eu me pergunto, que força teriam se viessem junto da doação do que você tem de mais precioso?

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