O caminho do pólen

A literatura é como um portal para outros mundos. Acho fantástico símbolos negros pintados no papel ou na tela digital transmitirem mensagens de terras longínquas, de milênios atrás, histórias de vidas inteiras, um sem-fim de glórias, sofrimentos e sabedoria humana. Além disso a escrita, como todas as artes, na sua expressão máxima, tem o poder de nos ajudar a reconectar com o nosso ser mais profundo, com os fluxos universais que permeiam tudo e todos, de nos libertar de nós mesmos – uma espécie de religião secular.

Mas a escrita – e o outro lado da moeda, a leitura – vão além. Para mim, são um convite para a própria vida. A Ilha Perdida, a primeira leitura da infância, deve ter influenciado minha decisão, anos depois, de passar semanas sozinho numa ilha deserta. On the Road foi decisivo para cortar o Brasil numa viagem da carona. Sexus deu coragem para escrever publicamente de alma e peito abertos, e para largar mais uma vez o emprego de escritório, o que vou fazer no último dia de 2015. O Tantra: A Suprema Compreensão foi a primeira entrada (com a água até as canelas) no oceano da meditação, onde pretendo mergulhar mais profundamente através de uma estadia prolongada num templo zen no Japão, começando em 2016. No romance que eu mesmo escrevi, o Para aqueles que estão fugindo, alguns livros vão revolucionando a vida do protagonista ao longo da narrativa – o que pode ser interpretado como uma sugestão velada ao leitor.

Porém, a literatura não se limita aos livros, e a inspiração final para começar este blog veio de outro blog – um livro aberto, escrito com palavras de vento e chuva refrescante na cara. O Notas sobre uma escolha. Num mundo onde toda uma civilização tenta te convencer, constantemente, a não acreditar em você mesmo e no que faz o seu coração vibrar, escritas como chuva e vento são uma libertação.

O pólen, assim como as sementes, é carregado pelo vento, por passarinhos, insetos, pelo homem. O pólen fecunda, a semente germina. Esses dias li uma entrevista da monja Coen dizendo que a origem da palavra felicidade, em português, tem a ver com fértil e frutífero. O que frutifica faz bem – pode ser uma filosofia, um relacionamento, uma ideia, uma árvore. Uma das sementes espalhadas pelo vento do Notas sobre uma escolha está começando a brotar: vai ser uma bioconstrução no sul da Bahia, o meu primeiro destino nessa nova jornada, a caminho do Japão. Eu e dezenas de outras pessoas vamos ajudar a construir, com as mãos, um lar levantado da terra. É, mais uma vez, o vento das palavras movendo mundos, envolvendo pessoas, erguendo belos castelos de areia.

Já a ideia para o nome do blog veio de um livro. Em O Poder do Mito, Bill Moyers (entrevistador) e o estudioso de mitologia e religião comparada Joseph Campbell (autor) discutem o sentido da vida. Para Moyers a vida teria um propósito. O entrevistado discorda:

“A mera vida não pode ser considerada como tendo propósito; olhe para as mais variadas intenções que ela tem, em toda parte. Mas cada encarnação, você poderia dizer, tem uma potencialidade e a missão da vida é vivê-la. Como fazê-lo? Minha resposta é: ‘Siga a sua bem aventurança’. Há algo em seu interior que sabe quando você está no centro, quando você está na direção certa ou fora dela. E se abandonar a direção para ganhar dinheiro, você perdeu sua vida. Se estiver no centro e não conseguir dinheiro, você ainda tem a sua bem aventurança.”

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Bill Moyers e Joseph Campbell

Os dois então passam a debater a ideia de que não é o destino que importa, mas a jornada. A verdadeira beleza estaria no aqui e agora, em tudo e em todos, em viver, e não apenas em um ponto no futuro ou no passado. Joseph Campbell dá um exemplo vivo:

“Os navajos têm aquela bela imagem do que eles chamam o caminho do pólen. O pólen é a fonte da vida; o caminho do pólen é o caminho para o centro. Os navajos dizem: ‘Oh, beleza diante de mim, beleza atrás de mim, beleza à minha direita, beleza à minha esquerda, beleza acima de mim, beleza abaixo de mim, estou no caminho do pólen’.”

O entrevistador responde dizendo que o Éden não foi, ele será. Campbell retruca: “O Éden é.” Moyers não se convence: “O Éden é… neste mundo de dor, sofrimento, morte e violência?” A resposta é uma das coisas mais profundas que eu já li:

“Essa é a sensação que ele desperta, mas é assim, este é o Éden. Quando você vir o reino disseminado pela terra, estará extinto o antigo modo de vida no mundo. É o fim do mundo. O fim do mundo não é um acontecimento por vir, é um acontecimento de transformação psicológica, de transformação visionária. Você não vê um mundo de coisas sólidas, mas um mundo de radiância.”

Escrevo este post ouvindo Ravi Shankar, o mestre indiano da cítara. A música dele, assim como as palavras do Joseph Campbell, o soar do vento nas folhas de uma árvore, o deslizar das nuvens no céu, os estalos da fogueira, e tudo o mais que existe, podem ser, se tivermos os olhos abertos, as próprias letras do livro sagrado, escrito em toda a existência, a verdade que liberta.

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